Um pedaço do Japão em Cachoeirinha: uma tragédia anunciada

Em 2005, um curioso episódio aproximou Cachoeirinha da cidade de Minamata, no Japão, de uma forma muito peculiar.


A história começa quando um homem que trabalhava com reciclagem alugou uma casa na Vila Eunice, bem próximo do Rio Gravataí, e passou a acumular pelo terreno todo tipo de material. Papel, ferro velho, plásticos. Comprava de catadores e tentava revender em grande quantidade. Muita gente embarcou nessa onda no começo desse século, mas os lucros se mostravam irrisórios. Era uma barca furada.


O pequeno empreendedor da Vila Eunice logo desistiu do negócio e entregou o imóvel, mas deixou para trás muito lixo seco pela casa. E foi em meio a ferros retorcidos e vidros abandonados que um grupo de crianças encontrou um brinquedo estranho. Uma água brilhosa, como se fosse um alumínio líquido: diversão garantida.


Um dos garotos levou o novo brinquedo para a escola, a Carlos Wilkens. Foi ali que, numa aula de ciências, a professora falou sobre o Mercúrio, uma substância perigosa, que pode provocar doenças e até a morte. O menino não titubeou, e foi mostrar o que havia encontrado.


A professora não quis acreditar no que via. Era mesmo uma pequena quantidade de mercúrio que o garoto tinha em mãos.


Segundo o wikipedia, Mercúrio é um metal líquido à temperatura ambiente, conhecido desde os tempos da Grécia Antiga. Também é conhecido como hidrargírio, hidrargiro, azougue e prata-viva, entre outras denominações. Seu nome homenageia o deus romano Mercúrio, que era o mensageiro dos deuses. Essa homenagem é devida à fluidez do metal. É um produto perigoso quando inalado, ingerido ou em contato, causando irritação aos olhos e vias respiratórias.


No mesmo dia, a escola acionou as autoridades. O menino ficou sem o brinquedo novo, e precisou ser submetido a exames, junto com seus amigos e familiares que haviam tido contato com aquele verdadeiro veneno.


Entre as autoridades municipais, houve quem quisesse a princípio esconder o caso, para enviar um escândalo. Mas, ao contrário, o episódio se transformou numa boa oportunidade de mostrar que as providências haviam sido tomadas com eficiência e rapidez. No dia seguinte, o estacionamento em frente à sede da Prefeitura ficou tomado por veículos de reportagem, a maioria de Porto Alegre.


O caso ganhou projeção nas mídias. E logo a notícia de Cachoeirinha chegou do outro lado do mundo.


Minamata possui pouco mais de 25 mil habitantes, situada na província de Kimamoto, no extremo sul do Japão. Em dezembro de 1956, um episódio ficou conhecido como O desastre de Minamata, onde mais de 700 pessoas morreram contaminadas por mercúrio. Se descobriu, na época, que os sintomas demoram cerca de 20 anos para se manifestar após a contaminação: convulsões severas, surtos de psicose, perda de consciência e coma.


O episódio isolado de Cachoeirinha trouxe a Porto Alegre um grupo de autoridades japonesas. Numa reunião na Fiergs, a poucos metros da ponte, eles ofereceram estrutura e financiamento para abrir uma sede do Instituto em Cachoeirinha, na luta para difundir em todo o mundo os perigos do mercúrio.


O projeto nunca saiu do papel e os japoneses voltaram para casa decepcionados. Os meninos da Vila Eunice, certamente cresceram.


Apenas 17 anos depois do contato que tiveram com o mercúrio às margens do Rio Gravataí, os sintomas de Minamata talvez não tenham surgido. Mas o prazo está prestes a expirar.


Em 2021, Minamata virou filme, protagonizado por Johnny Depp.

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