PONTO DE VISTA | "Presque”, de Verissimo, e o prenúncio das perigosas “fakenews”

Luis Fernando Verissimo é dos meus autores preferidos. Um humor inteligente e um conhecimento histórico impressionante estão sempre presentes nos seus textos. Lá em 2005, ele contou sobre um texto que circulou pela Internet como se fosse de sua autoria. Um belo texto, chamado “Quase”, atribuído a ele nas redes da época, depois se descobriu ter sido escrito por uma estudante catarinense, Sarah Westphal. O texto, conta LFV, chegou a ser traduzido na França, em sua homenagem, com o título “Presque”. Tanto a coluna com esse título, como o “Quase”, estão pela Internet e merecem ser lidos. Mas o que tem de interessante e preocupante nisso? Tudo!

Ainda que a narrativa tenha quase 20 anos, o próprio Verissimo já citava algo que nós nem imaginávamos o quanto seria grave: “Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê”? E mais: “Não temos nem escolha entre o admirável e o terrível, pois acima de qualquer outra coisa a internet, hoje, é inevitável”. Trazida a lembrança para os dias atuais, fico com a sensação de que uma “brincadeirinha” aparentemente inofensiva era o prenúncio de uma arma poderosa nas mãos de pessoas mal intencionadas.


O exemplo, obviamente, não quer contestar os indiscutíveis os avanços tecnológicos e as vantagens da Internet. Todavia, como todas as boas invenções que são deturpadas, um lado sombrio e perigoso acaba sendo descoberto. Informações falsas em nome de pessoas verdadeiras. Informações verdadeiras em nome de pessoas falsas. Informações falsas em nome de pessoas falsas. As redes sociais banalizaram esta metodologia. A intenção não se limitou a dar popularidade a textos a partir de nomes famosos. Essa ferramenta ficou eficaz na propagação de discursos de ódio, na distorção das ideologias, na disputa desigual entre quem tem compromisso com a verdade e quem tem nada a perder.


A Constituição Cidadã de 1988, no seu famoso art. 5º, inciso IV, assegurou que “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”. Ela também traz vários mecanismos para coibir quem queira atentar contra o Estado Democrático de Direito em que se constitui a República Federativa do Brasil. Assim, cada um é livre para pensar e dizer o que quiser. Mas ninguém está livre de responder quando suas manifestações atentarem contra as leis, contra os direitos coletivos ou de outras pessoas. E essa linha tênue entre o que é liberdade e o que é abuso não surgiu com a internet, mas ganhou uma velocidade impressionante com ela.


Assim, é honesto consultar fontes antes de compartilhar textos, vídeos, opiniões... Não é porque uma mensagem qualquer diz coisas semelhantes com o que eu penso, que posso divulgá-las sem qualquer filtro. Em tempos de incontáveis fakenews, esse cuidado precisa ser redobrado. Há muitas mentiras com cara de verdade. Há muitas armadilhas do “mal” aprisionando “pessoas de bem”. Como já dizia a sabedoria popular pré-internet: há muito texto fora de contexto virando pretexto. Uma quase verdade nunca será uma verdade. Pelo bem da democracia e de relações humanas mais saudáveis, façamos a nossa parte.

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